Loja tradicional fecha e futuro da Galeria do Rock preocupa

Um dos pilares da Galeria do Rock, em São Paulo, ruiu nos últimos dias. Uma das mais antigas lojas/selos, a Hellion Records, encerrou as atividades no local, sem aviso prévio. Quem esteve por lá no mês de julho se surpreendeu com a loja fechada, com balcões desmontados.

Os rumores foram muitos, mas o anúncio oficial só surgiu nesta segunda-feira, 27 de julho, com um anúncio no site da empresa. Após mais de 25 anos de atividade, a Hellion decidiu sair da galeria por conta do alto valor pedido pelo locador na renovação do contrato de aluguel.

Segundo a nota oficial, “todas as operações da Hellion como gravadora, atacado, varejo e vendas pelo site continuam e foram unificadas na central de vendas em nosso escritório na Aclimação (zona sul de São Paulo), que existe há 16 anos. A saída da Galeria do Rock também faz parte da estratégia da empresa em focar na reestruturação de seu site que será reinaugurado em breve”.

Há algum tempo a empresa vinha resolvendo, com sucesso, problemas com a distribuição de seus produtos e com a elevação de vários de seus custos fixos. Anos atrás já havia fechado a loja no segundo piso, e agora sai aparentemente de forma definitiva, do local.

A Hellion era um dos sustentáculos da galeria, ao lado das grandes lojas Aqualung, Baratos Afins, Die Hard e Zeitgeist. A decisão de abandonar a galeria ocorreu por conta de um problema imediato, que foi exorbitante e irreal valor pedido pelo locador para alugar o espaço.

Entretanto, a questão é mais complexa e se enquadra na lenta agonia do varejo musical e a indústria fonográfica, que padecem da queda na venda de CDs, DVDs e Blu-Rays e também com os downloads gratuitos que corroem o setor desde o início dos anos 2000.

Em junho o Combate Rock abordou aqui os graves problemas que parte expressiva dos lojistas da Galeria do Rock estava enfrentando com os problemas da indústria musical e também com a crise econômica atual.

O grande temor era que, com vendas em queda e com os preços de produtos nacionais e internacionais altos, por conta da subida do dólar, as lojas do local se transformassem em meros entrepostos (na melhor das hipóteses) ou em simples depósitos (me um dos cenários negativos). CLIQUE AQUI PARA LER ESTE TEXTO.

O cenário felizmente, não é tão crítico para os pilares Baratos Afins, Aqualung, Zeitgeist e Die Hard (e outrora Hellion). No entanto, ignorar que estas também não tenham sido afetadas é um equívoco, ainda que a os proprietários da Die Hard tenham feito um manifesto nas redes sociais rebatendo o texto do “entreposto”.

No caso da Die Hard, segundo a empresa, “a loja Die Hard tem clientes dentro da loja em mais de 70% do tempo, e, destes, mais de 90% compram. Nossas vendas pela internet representam mais de 75% do volume total de vendas, mas achamos isso óbvio, uma vez que, pela internet, atingimos o Brasil todo. Crescemos nestes anos, e estamos, desde outubro do ano passado, em nossa sede própria, se fosse como a matéria disse, teríamos ficado em nosso escritório/estoque que é próximo à Galeria, e não investido tanto”. CLIQUE AQUI PARA LER ESTE TEXTO.

Saudamos o bom desempenho da Die Hard, mas não é a regra, e a saída da Hellion é um indicativo, infelizmente, de que os piores temores do Combate Rock, aos poucos, tomam forma.

As mudanças de perfil de público e de comércio do local, com sua contínua e desenfreada ideia de se tornar “polo cultural e ponto turístico não necessariamente vinculado diretamente ao rock e à venda de música”, aceleram o processo de obsolescência do comércio – e, por tabela, evidência que estão cada vez mais obsoletos quem compra CDS/DVDs ou gosta mais do que o normal de música.

Resta torcer para que a Hellion se restabeleça e se torne uma potência de vendas também pela internet, território em que a Die Hard nada de braçadas. Ainda assim, esperemos o retorno da Hellion à galeria – é importante demais para ficar escondida atrás de um site.

Por Marcelo Moreira – Combate Rock