Dr. Sin se prepara para última turnê da carreira

Na reta final de uma carreira vitoriosa de 23 anos, eis que dois terços do Dr. Sin curtem uma virada de ano inusitada, acompanhando a cantora Fafá de Belém em uma apresentação concorrida em Portugal.

O baixista e vocalista Andria Busic e o baterista Ivan Busic estão acompanhando a veterana artista da MPB e do samba (por que não?) desde o finzinho de 2015 – fizeram inclusive um show bem bacana em São Paulo com a presença de Edgard Scandurra  nas guitarras.

O trio paulistano ainda tem várias datas a cumprir no primeiro quadrimestre de 2016 em sua turnê de despedida, então haverá várias oportunidades para ver oa banda em ação antes do fim – será mesmo que eles se separam?

O Combate Rock decide abrir 2016 com uma espécie de tributo ao Dr. Sin não só pela importância da banda ou pela alta qualidade de suas músicas, mas também por dois outros motivos: pelo exemplo e dedicação de roqueiros brasileiros em um mercado difícil para o gênero e pela banda ter escolhido os nossos veículos – site e programa de web rádio – para mostrar em primeira mão o seu mais recente trabalho, “Intactus”.

Andria, Ivan e o guitarrista Edu Ardanuy são raros músicos, de qualquer gênero, com uma vasta rede de amizades e relacionamentos importantes, seja dentro ou fora dos palcos.

Eles conhecem todo mundo e já tocaram literalmente com todo mundo, e o mais legal: todo mundo adora tocar com eles. A ética de trabalho e o respeito com que devotam à música fizeram dos três integrantes instrumentistas e produtores requisitados e disputados.

Um trabalho ao lado deles nunca se resume à produção ou execução de músicas em um estúdio ou em uma participação especial em shows. É bem mais do que isso, como a reportagem do Combate Rock presenciou algumas vezes. Envolve trabalho duro e pesado, amizade, muita energia positiva e uma disposição impressionante na busca de soluções diversas. São mestres em criar bons e criativos ambientes de convivência e de labuta.

Quando o trio mostrou ao Combate Rock, em primeira mão, as dez músicas do CD “Intactus”, no final de 2014, algumas semanas antes do lançamento, ninguém poderia imaginar que aquele era o último álbum da banda – nem eles mesmos.

Pesado, variado e diversificado, “Intactus” é um ótimo resumo do trabalho autoral da banda, e texto neste blog ressaltou a coesão e qualidade do material, que rivalizava com o disco de estreia do trio, em 1992, como o melhor do grupo – e está entre os melhores trabalho de 2015 para o Combate Rock.

A ironia perversa é que o nome “Intactus” aludia ao fato de a banda ter resistido por 23 anos com a mesma formação – o cantor norte-americano Mike Vescera cantou com eles por um tempo – passando por muitas e muitas dificuldades, e ainda assim sempre sendo uma referência para o rock brasileiro.

Surpreendentemente, seis meses depois, o trio anunciou que encerraria as atividades ao final da turnê do álbum, que se tornou a despedida. Os músicos entenderam que era hora de parar em comum acordo, sem divergências ou desavenças públicas. Edu Ardanuy até escreveu em redes sociais que, no caso dele, havia um certo desânimo com as dificuldades por que passam a indústria da música e o rock, em particular, neste século.

Muitas bandas importantes encerram ou congelam as atividades, coisa muito frequente em dias de crise econômica ou de subversão total das regras e modus operandi da indústria cultural.

No caso do Dr. Sin, no entanto, o choque foi maior do que o normal. Os músicos trabalharam muito entre 2013 e 2014 e estavam animados com a chegada de “Intactus”, ainda que mais críticos do que o normal em relação à cena musical brasileira na entrevista concedida ao Combate Rock. Justamente naquele que talvez fosse um dos melhores momentos profissionais e criativos do trio, surgiu a decisão de parar.

Obviamente não era dessa forma que Andria Busic tinha imaginado comemorar seus 50 anos de idade, mas a serenidade com o músico demonstrou ao lidar com a situação revelou maturidade e inteligência invejáveis.

Muito e muitos fãs trataram a notícia como uma tragédia nas redes sociais, mas o baixista amenizou a questão informando que a decisão, embora um pouco abrupta, pouco tempo depois daquele que pode ser o melhor disco do Dr. Sin, foi tomada após muita reflexão e ponderação.

O fim previsto do trio paulistano foi uma das notícias ruins de 2015. O rock nacional perde uma das melhores bandas já surgidas por aqui. Portanto, corra que ainda dá tempo de vê-los no palco e agradecer por sua ótima música.

Do Combate Rock