“Cotia Retrô”: Cotia, uma minúscula Hollywood. O cinema na história da cidade

Por Beto Kodiak

O Cotia Retrô desta semana vai abordar um assunto diferente: o cinema, mas com foco em Cotia.

A cidade já foi cenário de muitas gravações de novelas, documentários, comerciais e filmes. Não consegui, e é difícil, saber quantos sets de filmagens aconteceram na cidade nos últimos tempos.

Mas, resolvi resgatar uma história já publicada por mim em 2009, sobre um filme gravado em 1970 em Caucaia do Alto e fui mexer em meus arquivos e na internet para contar um pouco sobre o assunto ‘cinema’ em Cotia. O registro fotográfico desses filmes quase não existe. Nosso amigo César Tibúrcio conseguiu uma pérola, que é a foto da gravação de um seriado antigo em Cotia, onde elefantes tomaram a Praça da Matriz.

Confira um pouco da história dos filmes gravados em Cotia. Se você se lembra de mais algum, comente e dê detalhes.

Mágoas de Caboclo

Há 41 anos foi gravado em Caucaia do Alto um filme que contava a história de um caipira. O caipira em questão era Chico Fumaça, personagem do ator Nhô Juca, uma espécie de “cover” do também ator Mazzaropi.

magoasNhô Juca tentava imitar o seu ídolo, Mazzaropi, em tudo o que era possível. Desde os trejeitos até os personagens, tanto que Chico Fumaça era um personagem do famoso comediante da época.

Nhô Juca fez poucos filmes em sua carreira, diferente de Mazzaropi, que tem em sua filmografia, dezenas de filmes que sempre contaram a história de seus personagens tradicionalmente caipiras.

Mas para nós cotianos, um filme de Nhô Juca marcou a cidade, particularmente Caucaia do Alto.

Nhô Juca encarnava em sua carreira o personagem Chico Fumaça, uma espécie de pseudônimo que usava. No filme rodado em Caucaia, ele fez o papel do caipira Nhô Jeca.

“Mágoas de Caboclo” conta sobre a vida tranquila e pacata numa pequena cidade do interior que é bruscamente alterada quando uma rica mina de bauxita é encontrada nas terras de Nhô Jeca, personagem de Nhô Juca. Da cidade grande rapidamente surge um grupo de homens interessados no minério e junto com eles, chega muita confusão e bagunça. Nhô Jeca, o dono das terras, é uma pessoa muito simples, e aproveitando de toda ingenuidade do pobre caboclo, o chefe do grupo tenta enganá-lo e o convida para passar uns dias em sua mansão na capital. A “comitiva” que segue para a capital tem direito a bode, galinhas e porcos no meio da família e amigos que dividem o espaço no carro.

Na mansão, eles pintam e bordam e deixam o ricaço com os cabelos em pé.  O mais interessante no filme são as cenas rodadas em uma Caucaia de 1970 (alguns datam como 1966, mas o filme seria lançado em 1975), com suas casas simples, muitas com paredes em taipa e pau-a-pique.

A igreja, as ruas sem calçamento, os figurantes e belas cenas de um local típico do interior, são mostradas no filme. Quando os personagens vão para São Paulo, algumas cenas da Raposo Tavares podem ser vistas e na época a rodovia era de pista simples, com muitas árvores à margem, diferente dos dias de hoje.

Segundo o site Cotianet, alguns figurantes são moradores do distrito à época, como seo “Quito Pires” que regia a banda, em uma cena de despedida na estação de trem de Caucaia.
O filme tem a direção de Ary Fernandes e tem no elenco; Nhô Juca, Luciano Grégori, Lidia Costa, Gilberto Salvio, Francisco Curcio e Rosangela Maldonado.

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Cinema em Cotia

amanteDiversos filmes foram rodados em Cotia. Quem assistia a sessão de cinema “Sala Especial”, da TV Record, nos anos 80, com certeza se lembra de vários filmes que mostravam cenas de Cotia. Alguns desses eram rodados em um casarão no Jardim Pioneiro.

Em um dos filmes, ‘Amante Muito Louca’, de 1973, Stephan Nercessian estrela Junior, um playboy que vira amante da amante de seu pai, vivido por Cláudio Correa e Castro. Foram gravadas cenas na Raposo, entre os quilômetros 28 e 30. No elenco, Jô Soares, Alcione Mazzeo e Tereza Raquel.

Poster e cena de A Virgem no Km 30
Poster e cena de A Virgem no Km 30

Nuno Leal Maia também estrelou um filme na década de 70 que foi gravado no mesmo casarão. ‘A Virgem’, também tinha no elenco Kadu Moliterno, Nádia Lippi, Tony Tornado e Dionísio Azevedo. Algumas cenas foram gravadas próximo à churrascaria do Km 30 da Raposo e no jardim que tinha em frente. Elas mostravam onde hoje é o retorno, uma rodovia de pista simples com diversas árvores na beira e uma estátua similar a do Oscar (prêmio americano do cinema) que ficava em frente à antiga fábrica da Lucas CAV. O filme foi gravado na Chácara Jovina, na Vila Jovina, propriedade de Renato De Vivo. A cena na churrascaria do 30 está mais ou menos aos 10 minutos do vídeo.

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Em 1972 foi gravado em Cotia a série semanal Dom Camilo e os Cabeludos, estrelado por Otello Zeloni, que fazia o papel do padre da cidade. As cenas eram gravadas no centro de Cotia todas as terças (*). Os cabeludos eram liderados por Denis Carvalho, ainda em começo de carreira. A mocinha da série era Terezinha Sodré. Ainda tinha no elenco Elias Gleizer, Nuno Leal Maia e Ney Latorraca.

Um dos episódios de Dom Camilo em Cotia. Foto: Arquivo César Tibúrcio
Um dos episódios de Dom Camilo em Cotia. Foto: Arquivo César Tibúrcio

Era a história de um padre não-conformista que brigava com o prefeito da cidade que era comunista. No meio de tudo, havia um grupo de jovens que queriam quebrar a barreira da ditadura.

Em um episódio, Zeloni montou em um elefante pelas ruas do centro de Cotia. A filha de Zeloni, Romana, conta que o pai caiu e quebrou um dedo e costelas, e lembra que as cenas externas em Cotia eram uma grande festa. Até a igreja da matriz de Cotia foi palco de cenas hilariantes. A série era apresentada pela TV Tupi. Zeloni morava na Granja Viana, onde hoje funciona o The Square Open Mall.

(*) As gravações eram no período da tarde e muitos moradores fizeram papéis de figurantes. As gravações podiam ser vistas pelo público. Este repórter lembra que nas terças-feiras acordava cedo e ficava “enchendo” a Vovó Quininha para levá-lo às gravações. Eu tinha cinco anos de idade. Bons tempos.

Atriz cotiana

Quatro filmes de Zé do Caixão tiveram a participação de uma atriz de Cotia. Tereza Bianchi fez além dos filmes com José Mojica Marins, outras participações nas tradicionais pornochanchadas dos anos 70, como ‘A Árvore do Sexo’, com Nádia Lippi e Felipe Carone. Outra participação dela foi em ‘Lilian M – Relatório Confidencial’, como a cafetina Maria Antonieta. Aliás, esse filme foi relançado em DVD há dois anos.

Também participou de ‘O Supermanso’, (ASSISTA AQUI) de 1974 e ‘A Mulher que Inventou o Amor’, de 1979, com Aldine Müller.

Supermanso e A Mulher que Inventou o Amor
Supermanso e A Mulher que Inventou o Amor

Chapa

O curta metragem ‘Chapa’ não foi feito em Cotia, mas tem como personagem principal, um ator de Cotia: Helias Neto. Veja o curta no link https://vimeo.com/35377356.

Pelé Eterno

Vocês sabiam que uma cena do filme Pelé Eterno foi gravada no campo de futebol do Morro Grande?  O diretor Aníbal Massaíni queria reproduzir cenas antigas e lhe foi indicado esse campo, pelo fato da arquibancada lembrar um pouco o passado do futebol.

Xingú 

A mesma produtora dos filmes ‘Ensaio sobre a Cegueira’, ‘Cidade de Deus’ e ‘À Deriva’, escolheu a barragem da Graça, na reserva do Morro Grande para a gravação de algumas cenas do filme Xingu, que tem como diretor Cao Hamburger e produção de Fernando Meirelles.

No final de dezembro de 2010, mais de 50 pessoas, entre atores, produtores e ajudantes passaram o dia entre a mata e a represa.

O filme foi lançado em 2011 e conta a história dos lendários irmãos Villas Boas e sua luta pela preservação da natureza e dos povos indígenas. Segundo a produtora, o local conta com um cenário perfeito. Represa de águas límpidas e mata selvagem são perfeitos para uma gravação ‘bem original’. Os atores ‘amaram’ o local.
 
Brasileirinhas 

Falar em cinema e filmes e não citar a pornografia seria deixar um pedaço da história de fora. Se nos anos 70 Cotia foi cenário das pornochanchadas e filmes eróticos, dos anos 90 para cá, uma ‘penca’ de filmes pornôs foram gravados em Cotia. Sei de duas chácaras na região do Morro Grande que serviram de set para esse tipo de filme.

A falida produtora Brasileirinhas todo mês vinha para Cotia com seu cast de ‘atores’ e ‘atrizes’ para gravar. Um filme que mostra ao fundo a cidade foi gravado dentro de um ônibus, que saía de São Paulo e vinha pela Raposo, com o sexo rolando dentro do coletivo. Em um determinado momento, ele para em uma chácara, que se não me engano é na região do Jardim Pioneiro.  Dentro do mercado pornô, Cotia teve uma atriz, a falecida Malu Marques.

filmagem janelaDocumentário 

Em 2010, o cineasta Nelson Pereira dos Santos esteve no Sítio do Mandu, gravando o documentário “A Expansão Territorial”, baseado no livro “Os Caminhos da Conquista” de Ricardo Maranhão e ilustrações de Walandro Keating, são desenhos que reproduzem a perspectiva geológica dos territórios conquistados pela ação dos movimentos das bandeiras a partir de São Paulo. O filme aborda a importância da expansão dos Bandeirantes na história do Brasil.

Set de gravação na represa
Set de gravação na represa

A História da Padroeira 

A produção tem duração de 15 minutos, foi gravado especialmente para ser exibido na cidade que tem o maior santuário da América Latina e conta a trajetória de fé e devoção à Padroeira do Brasil, desde o encontro da imagem nas águas do Rio Paraíba, até os dias atuais, com a construção do Santuário Nacional.

A obra foi dirigida por Del Rangel, um veterano da teledramaturgia brasileira. Com mais de 20 produções no currículo, o diretor já trabalhou em novelas, especiais, séries e minisséries, para emissoras como Globo, SBT, Record e Bandeirantes.O filme foi gravado em Cotia, na Represa do Morro Grande e na Capela dos Pires. Na represa, a locação foi escolhida por ser similar ao local onde a santa foi achada em 1717. Veja matéria aqui.

Curta-metragem Desiderium, Desiderata  

O cineasta cotiano Luiz Junior se prepara para lançar seu segundo curta-metragem. Juntamente com o coletivo Cão Andaluz Filmes, roteirizou, produziu e dirigiu o curta-metragem Desiderium, Desiderata, recentemente convidado para o Paragon Film Festival, dos EUA. (Veja entrevista e o link do curta)

Cinema do Jubran 

E para exibir filmes em uma época que não existia vídeo cassete e DVD, só o cinema. E Cotia teve o seu, aliás, do Jubran Name.

Ficava na Rua Senador Feijó e mudou de nome algumas vezes, como Cine Central, Cine Virgínia, etc.

Na foto abaixo, vemos no canto direito, a placa do Cine Central, em 1981, exibindo “O Rei e Os Trapalhões” e “Marcelino Pão e Vinho”.

jubran

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