Coluna da psicóloga Adriana Biem: Parar de fumar

*

Parei de fumar há exatamente dois anos e oito meses depois de ter fumado por 19 anos. Dos 13 aos 32. Nesses 19 anos parei algumas vezes. Em algumas épocas fumei menos, outras mais. Nunca fui de fumar tanto assim, no dia a dia eram no máximo 10 cigarros, aos finais de semana esse número crescia um bocadinho, mas mesmo assim, nunca consegui contar para alguém o quanto eu fumava, usando maço como medida. Sempre achei um exagero quem fuma um, dois ou até três maços por dia, achava que não havia tempo hábil para tal feito. Nunca gostei de fumar de manhã também, achava meio estranho esse lance de acender um cigarro antes mesmo do café da manhã. E de madrugada então? Há quem levante às 3 da manhã, fume um cigarro e volte a dormir. Impraticável para mim.

Com todas essas informações, podemos pensar até que eu não era tão viciada assim e que parar foi relativamente fácil, mas não. A decisão na verdade não foi minha e sim de uma maldita enxaqueca com aura que eu fui apresentada naquele 15/12/13. O médico me assustou e achei que era hora de parar. Lembro-me do último cigarro na frente de um bar na Vila Mariana. Era final de ano, o que em outros momentos me faria dar uma bela desculpa para adiar esse momento. Festas, viagem, férias.  Como parar de fumar bem agora? Mas resisti e cá estou. Dois anos e oito meses.

Normalmente começamos a fumar na adolescência, época de medos, ansiedades, inseguranças, rebeldia, e que queremos avidamente fazer parte de um grupo. Achamos que existe um ganho com o comportamento de fumar, é algo que nos socializa, achamos até “bonito”. E isso tudo continua fazendo sentido mesmo depois de adultos, pois quando nos deparamos com esses mesmos sentimentos, vemos no cigarro um alívio, uma parceria e uma sensação de bem-estar.

Parei algumas vezes essa parceria por diversos motivos, por causa de ex-namorado que não gostava do cheiro, parei por “ressaca de cigarro” depois de fumar muito no final de semana, parei porque não se podia fumar e tomar anticoncepcional ao mesmo tempo, parei por me assustar com algumas matérias que li em revistas, mas só deu certo mesmo, quando parei por mim, pela minha saúde. Tá bom, por medo também, que seja. Parei, mas a vontade ficou.

Dizem que ex-fumante é pior do que quem nunca fumou e concordo. É pior porque mescla um incômodo em relação ao cheiro e à fumaça, com uma vontade quase eterna de sentir novamente a sensação de fumar. E é difícil de lidar com isso tudo.

Mais ou menos 1 ano e meio depois que parei, me senti preparada para dar um trago e ver o que eu sentia. Tinha bebido cerveja, estava com vontade, provei. Foi horrível! Aquela fumaça quente desceu queimando a minha garganta, o gosto na boca era muitíssimo amargo e algumas tossidas depois, vi que aquilo não era mais para mim. Tentei mais algumas vezes depois, pois descobri nesse ato de experimentar, um aliado. Sentia vontade, experimentava, achava horrível e a vontade passava.

Melhor do que ficar babando no cigarro alheio e invejando o amiguinho do lado que fumava tão alegremente.

Hoje entendi que essa vontade nunca vai passar totalmente (espero que esteja errada), entendi que parar de fumar é quase como perder alguém. É um luto. Algo que sempre vamos sentir saudades, apesar de saber que nunca mais faremos. A saudade é da lembrança que temos dos momentos que fumamos, do sabor, do apoio que achamos que o cigarro nos dá muitas vezes. Uma fantasia de que poderíamos viver felizes para sempre sendo eternos parceiros de aventura. Acredito que sempre terei saudades da lembrança que tenho do cigarro.

Parecido com quando perdemos alguém (por morte ou separação) e ficamos com aquela saudade do que não aconteceu e aquela ideia de que poderia ser bom até hoje, mas de fato nunca saberemos, pois acabou e devemos lidar com as expectativas. Há 972 dias lido com essa boa lembrança, mas definitivamente não quero mais isso para mim. O cigarro está morto e enterrado na minha vida e eu que lide com o meu luto, afinal toda perda é um luto e temos várias perdas durante nossas vidas.

*Adriana Biem uma psicóloga que está tentando ser cronista – Telefone: 9-9495-2141 – adrianabiempsicologa.com.brEmail: [email protected]