Ótima biografia retrata a revolução e a vanguarda do Kraftwerk

Mais revolucionários do que o movimento punk, mais influentes do que os Beatles. Os fãs e admiradores da banda alemã Kraftwerk não são nada modestos quando usa argumentos para ressaltar a importância do quarteto alemão, certamente o maior nome da música eletrônica.

As duas premissas são praticamente a base de um dos melhores livros sobre música/rock lançados nos últimos anos no Brasil – ok, descontemos o fato de o autor, o jornalista e escritor britânico David  Buckley, ser um ardoroso fã da banda, a ponto de confessar na introdução nunca ter ficado tão nervoso como no momento de entrevistar um dos integrantes do quarteto.

kraft“Kraftwerk Publikation – A Biografia” foi lançado no final do ano passado no Brasil pela editora Seoman. Na Europa, já é considerada uma obra referência sobre o grupo alemão que é o precursor da música eletrônica no mundo pop e para as “massas”.

São vários os méritos do livro, sendo o principal o de ter uma linguagem acessível (e uma ótima tradução para o português), transformando a peça em um verdadeiro guia de introdução à música eletrônica pop.

Outro ponto positivo é o texto seguir a linha tradicional das obras sobre o mundo do rock escritas por autores britânicos – muito rigor na pesquisa histórica, muitas e muitas entrevistas e o principal, um belo trabalho de contextualização histórica e conceitual.

A versão brasileira ainda vem com dois bônus de primeira linha, que são os textos introdutórios de Camilo Rocha e Paulo Beto. Rocha é um conceituado jornalista da área musical e tambpem atua como DJ; Beto é músico e produtor, atuando também sob o nome de Anvil FX.

Enquanto o jornalista e DJ escancara a importância do Kraftwerk em relação a praticamente toda a música moderna feira a partir dos anos 80, o músico e produtor traça um rápido panorama histórico da música eletrônica desde as primeiras experiências do século XIX até as influências contidas nos trabalhos de artistas contemporâneos, sempre tendo o Kraftwerk como pilar central da “revolução”.

Os dois textos já valem a aquisição da obra e reforçam as premissas estabelecidas por Buckley – mais revolucionários do que os punks, mais influentes do que os Beatles.

novador, mas com reconhecimento aquém do merecido

Apesar de exageradas, as premissas são acompanhadas por bons argumentos e jogam luz a um fato que é quase incontestável: o reconhecimento menor do que o merecido ao quarteto alemão, que pode, sim, ser considerado altamente inovador e bastante revolucionário, já que estabeleceu novos conceitos a respeito de música pop.

Se o Kraftwerk não é o pioneiro da música eletrônica, é certamente o ponto central do gênero, seja como catalisador de influências, seja como difusor de tendências e conceitos – ainda que tenha de conviver com o epíteto de “pai da música eletrônica” ou “maior expoente da música eletrônica de massas”, ou de DJs.

Embora a tal da música eletrônica de pistas, a dos DJs, seja consquência direta do trabalho do Kraftwerk, considerar o que os alemães fizeram – e ainda fazem – seja apenas música eletrônica é limitar o escopo de possibilidades abertas pelo grupo.

Descontando a exaltação que por vezes domina certas passagens do livro, o que podemos concluir é que o Kraftwerk sempre foi além da música meramente eletrônica.

Experimental e vanguardista

Mais do que praticamente criar um gênero pop, foi um grupo altamente experimental e de vanguarda, explorando todo tipo de som, transitando com autoridade por todos os segmentos, indo do rock ao experimentalismo de vanguarda baseado na música erudita, passando pelo rock, pelo soul, pelo funk, pelo blues e pelo jazz.

E esse é outro mérido de “Kraftwerk Publikation”: descortinar e desvendar as qualidades da banda de forma a não restringi-la apenas a música artifical feita por computadores e dominada por sons robóticos e feito por máquinas – ainda que, de certa forma, em alguns momentos, os músicos se esforçassem pro reforçar conceitos estéticos ligado a esse estereótipo.

Por todo o livro, Buckley deixa claro que a revolução sonora praticada pelos alemães só foi possível por uma conjuntura de fatores históricos e pela bagagem de cada um dos integrantes da formação clássica – Ralf Hutter, Florian Schneider-Esbelen, Wolfgang Flur e Karl Bartos.

De classe média abastada e sólida formação cultural-acadêmica, surgiram no final dos anos 60 em uma sociedade que foi reconstruída das cinzas da Segunda Guerra Mundial e que ainda sofria influências muito presentes das consquências sociopolíticas do nazismo deformador e psicopata.

O ambiente novo favoreceu o surgimento – ou, pelo menos, estimulou a busca por – de uma cena cultural e artística sedenta por encontrar uma idnetidade própria e cada vez menos dependente da cena pop norte-americana e britânica.

E aqui a contextualização feita por Buckley atinge o seu ponto alto, fornecendo um panorama completo e rico do cenário social e artístico europeu, detalhando as condições necessárias para o aparecimento do Kraftwerk.

Também é ricamente documentada a influência que os alemães tiveram no cenário disco norte-americano, no nascente hip-hop do final dos anos 70, na cena synthpop britânica dos anos 80 – com destaque para o Depeche Mode – e para os derivados das pistas e as variações da house music e tendências diversas.

Além dos fatos biográficos devidamente documentados e contextualizados, o livro apresenta bom conteúdo analítico e várias visões diferentes, incluindo detratores e críticos ferozes da música “artificial e sem alma”, como descreveu um jornalista da revista Rolling Stone norte-americana.

Mais do que uma simples biografia, Buckley parte do Kraftwerk para fazer um panorama completo de um gênero musical e uma análise cultural de um movimento musical. É de se lamentar, apenas, a ausência de declarações dos dois principais integrantes, Schneider e Hutter, sempre avessos a entrevistas e a qualquer tipo de publicidade, fato que foi driblado com habilidade e competência pelo autor.

Por Marcelo Moreira – Omelete