Jogadores do Barueri denunciam tentativa de suborno

Jogadores do Grêmio Barueri dizem que elenco teve oferta para perder jogo na A-3. Ex-gestor confirma

A partida entre Rio Preto e Grêmio Barueri, pela quarta rodada da Série A-3 paulista, disputada em 11 de fevereiro, está sob suspeita.

Dois jogadores do clube da Grande São Paulo denunciaram ao DIÁRIO, sob a condição de terem a identidade preservada, que o elenco recebeu proposta para entregar o referido jogo, a fim de beneficiar um suposto apostador asiático.

De acordo com um dos atletas, a oferta foi levada ao grupo pelo empresário Jaci Martino de Oliveira, ex-gestor do Grêmio Barueri, e por outras duas pessoas. Oliveira nega a acusação (leia mais abaixo). Mas o sócio dele, Matheus Soares dos Reis, que trabalhou como técnico da equipe em São José do Rio Preto, confirma que um apostador asiático ofereceu ao clube US$ 25 mil (cerca de R$ 93 mil) pela fabricação do resultado. Segundo Reis, porém, a proposta foi recusada.

A partida, realizada no Estádio Anísio Haddad, terminou com goleada do Rio Preto, por 4 a 0. Um dos atletas contou ao DIÁRIO que o acerto era para o Grêmio Barueri perder o confronto por mais de três gols: “Ele (Jaci Oliveira) chegou ao vestiário e falou: ‘Hoje tem de entregar o jogo para poder pagar o salário de todo mundo, para poder melhorar o alojamento. Se não acontecer isso, vai ser todo mundo mandado embora… Não quer entregar, não atrapalha’”, confidencia.

A tentativa de suborno é confirmada por Reis. O investidor afirma ter deixado para o elenco do Barueri a decisão de aceitar, ou não, a oferta: “(A proposta) foi na noite anterior (ao jogo contra o Rio Preto). Na verdade, ela chegou através de uma outra pessoa. Eu sei quem é essa pessoa, mas prefiro não citar o nome dela. Eu conversei com os atletas e falei: ‘O que vocês decidirem está decidido’”, afirma o empresário.

PENALIDADE/  O Grêmio Barueri perdia para o Rio Preto por 3 a 0 até os 37 minutos da etapa final. Foi quando o atacante Gustavo Martino cometeu um pênalti, revoltando a maioria de seus companheiros. Gustavo, que foi advertido com o cartão amarelo pela falta, é filho de Jaci. Na cobrança, os donos da casa marcaram o quarto gol.

Na opinião de um jogador da equipe derrotada, o pênalti foi proposital. “Era algo que não poderia acontecer. Ninguém aceitou isso, ninguém abraçou a ideia. Fomos para cima dele (Gustavo), porque ficou visível que ele estava de acordo”, afirma esse atleta.  “Teve uma discussão no campo, a maior briga… E, depois do jogo, deu mais discussão ainda”, acrescenta.

Ao DIÁRIO, Gustavo Martino, que não integra mais o elenco do time da Grande São Paulo, negou a acusação dos ex-companheiros, apesar de Reis também levantar suspeitas sobre o seu comportamento no lance da penalidade máxima (confira na entrevista ao lado).

“Sou centroavante. Minha obrigação, quando sai escanteio, é ir marcar o zagueiro central dos caras. Eu fui dividir a bola com ele e o juiz acabou dando o pênalti. Não foi proposital, não. Foi lance normal”, diz Gustavo. Ao ser perguntado se é filho de Jaci Oliveira, então gestor do Grêmio Barueri, o atacante disse ser apenas um “parente” do empresário.

INVESTIDORES/  Em dezembro, a gestão do futebol profissional do Grêmio Barueri passou às mãos de Oliveira e Reis, tratados como investidores. A dupla afirma ter desembolsado, neste ano, mais de R$ 100 mil em alimentação, transporte, salários e aluguel do centro de treinamento da equipe, em Cotia.

Antes do início da Série A-3, porém, houve a primeira divergência dos empresários com a direção do clube. Reis e Oliveira alegam que os dirigentes do Barueri desapareceram com o dinheiro que deveria ser gasto com a inscrição dos jogadores na Federação Paulista. Por isso, o time perdeu por W. O. na estreia. Em dez partidas pela Terceira Divisão estadual, o Barueri acumula dez derrotas, 45 gols sofridos e saldo negativo de 42 (leia mais na arte abaixo).

Representantes da direção do Barueri foram procurados para comentar as denúncias e responder às acusações, mas não atenderam as ligações.

A parceria entre clube e dupla de investidores foi desfeita em 13 de fevereiro, dois dias depois do jogo em Rio Preto, por meio de comunicado: “O fim da parceria foi devido à quebra de contrato por parte dos investidores. Sendo assim, esses senhores não fazem mais parte do Grêmio Barueri”, diz a nota.

Rio Preto afirma desconhecer os fatos relatados

A diretoria do Rio Preto, clube adversário do Grêmio Barueri na quarta rodada da Série A-3 do Campeonato Paulista, disse desconhecer qualquer tipo de acordo para fabricar o resultado do jogo realizado em 11 de fevereiro.

O vice-presidente José Eduardo Rodrigues destacou a “idoneidade moral” do Rio Preto, mas afirmou, por meio da assessoria de imprensa do clube, considerar estranhas as sucessivas derrotas do time de Barueri no torneio.

“O Rio Preto desconhece os fatos relatados. Realmente, o campeonato pode ficar contaminado por essas situações. Ganhamos legitimamente dentro de campo. Os resultados deles são estranhos, haja visto o último, quando perderam pelo placar de 10 a 0 para o Nacional”, disse.

Os jogadores do Grêmio Barueri ouvidos pelo DIÁRIO disseram não ter conhecimento sobre uma possível participação do Rio Preto.

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Entrevista
Matheus dos Reis_ Ex-gestor do Barueri

‘Te confesso que a proposta balançou, pela situação’

DIÁRIO_ Houve a visita de um apostador que fez uma proposta de US$ 25 mil para vocês entregarem a partida para o Rio Preto. Correto?

MATHEUS  DOS REIS_ Sim, exatamente.

Quando isso aconteceu?

Foi na noite anterior (ao jogo).

Como aconteceu?

Na verdade, ele (apostador) chegou através de uma outra pessoa. Eu sei quem é essa pessoa, mas prefiro não citar o nome dela. Eu conversei com os atletas  e falei: “O que vocês decidirem está decidido”.

Em algum momento, o Jaci coagiu os atletas para que aceitassem a proposta?

Na minha frente, não. Ele sempre foi um cara que teve um pé atrás com isso, nunca teve interesse de aceitar uma proposta dessa. Te confesso que a proposta balançou, pela situação que nós estávamos vivendo com a diretoria, mas, em uma conversa entre nós, cogitamos não fazer e conversar com os atletas. Eu conversei com eles. 

Os atletas recusaram?

Os atletas recusaram.

Antes da partida, já no vestiário do estádio, esse apostador fez nova  proposta aos atletas. Isso aconteceu ou não?

Não. Comigo no vestiário, não.

Mas pode ter acontecido com você fora do vestiário?

Não sei. Eu creio que não.

Aos 37 minutos do segundo tempo, o atacante Gustavo faz um pênalti. Foi proposital?

Eu pedia para ele, no escanteio: “Não volta, não volta” e ele acabou voltando, realmente…  Da minha parte, não vejo por que ele se expor dessa forma. 

Houve briga entre os atletas depois do pênalti?

Houve uma discussão, um bate-boca. Alguns jogadores ficaram  muito revoltados com ele.

Você ficou mexido quando soube da proposta?

Sim.

Mesmo assim, não aceitou?

É um valor alto, na verdade, eu conversei com os atletas primeiro.

Caso os atletas aceitassem a proposta, você compactuaria com a decisão deles?

Sim, eu creio que sim. Por toda a situação, por saber o que o clube (Grêmio Barueri) estava fazendo com a gente.

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Investidor acusado por atletas nega participação

Jaci Martino de Oliveira diz que conversou com chinês sobre parceria

Acusado por dois jogadores do Grêmio Barueri de pedir para o elenco perder por mais de três gols contra o Rio Preto, pela Terceira Divisão estadual, o empresário Jaci Martino de Oliveira negou participação na tentativa de suborno, confirmada por seu sócio, Matheus Soares dos Reis.

O ex-gestor do Grêmio Barueri afirmou desconhecer qualquer tipo de proposta para o time entregar a partida. “Isso é um absurdo. Eu nem sei o que é isso. Comigo, não aconteceu”, disse, ao ser perguntado sobre a relação com um suposto apostador asiático. “Apostador? Apostador vai no clube fazer o quê?  Não acompanhei isso.”

Ele contou ter conversado com um empresário chinês sobre uma possível parceria envolvendo o intercâmbio de atletas: “Veio um empresário da China, veio um empresário de Barueri mesmo… Vieram mais de 20 empresários”.

Questionado se esteve no vestiário do Estádio Anísio Haddad antes do jogo, Jaci reconheceu que esteve no local, mas não na área reservada aos atletas.

“Eu não era gestor mais. O Matheus que falou: ‘Dá uma chance pra esse pessoal’.  Eu fui,  paguei ônibus, paguei lanche, paguei almoço, paguei a janta para esses meninos aí, que nem são meus jogadores…  Eu fui no estádio porque paguei o ônibus e o meu filho (Gustavo Martino) jogou. Aliás, foi a única partida que o meu filho jogou. Desconheço isso aí”, disse Oliveira.

Quando perguntado sobre o fato de o próprio sócio ter confirmado a presença do  apostador asiático na concentração da equipe, Jaci afirmou que, em momento algum,  isso ocorreu:

“O Matheus está louco”

Por: Yago Rudá – Foto de Almeida Rocha/Diário SP