Empresa que desviava milhões na saúde do RS tinha sócios laranjas em Cotia. Médico é preso

Esquema na cidade de Canoas (RS) foi descoberto e empresa tinha diretoria de fachada, com laranjas em várias cidades, entre elas, em Cotia, incluindo morador de Caucaia. Nomes não foram divulgados

O Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul realizaram uma operação nesta quinta-feira (6) contra uma organização criminosa que teria desviado milhões de reais da saúde de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Foram presos o mentor do esquema, o médico e presidente do grupo Cássio Souto Santos (ex presidente do PV – Partido Verde, em Cotia), a atual presidente Michele Aparecida da Câmara Rosin e Marcelo Bósio, secretário de saúde de Canoas em 2016, quando o Gamp – Grupo de Apoio à Medicina Preventiva e à Saúde Pública foi contratado. Um diretor está foragido e é procurado pela polícia de São Paulo. Foram apreendidos bens, numa estimativa de R$ 40 milhões.

Segundo o MP, os investigados receberiam mais de R$ 1 bilhão durante os cinco anos de contrato assinados pela Prefeitura de Canoas e o Gamp.

Nesta quinta, o MP entrou com uma ação civil pública onde pede o afastamento da diretoria do Gamp da gestão da saúde de Canoas e que o município nomeie um interventor para assumir os hospitais e postos que eram de responsabilidade do grupo. Na ação, os promotores pedem o encerramento do contrato, a dissolução do Gamp e a abertura de uma nova licitação, em até 120 dias, para contratação de outra empresa. Os valores deverão ser devolvido aos cofres públicos.

Foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 70 mandados de busca e apreensão em cinco estados: no RS, em Canoas (incluindo a Prefeitura e as sedes do Gamp), Porto Alegre, Gravataí e São Francisco de Paula. Em Santa Catarina, no Balneário Camboriú. Em São Paulo, os mandados são cumpridos na capital, em Cotia, Itatiba, São José dos Campos, Caieiras, Santa Isabel e Santo André. No Rio de Janeiro, os mandados são cumpridos na capital e, no Pará, nas cidades de Belém e Altamira.

Em nota, o Gamp informou que irá se manifestar formalmente assim que os advogados tiverem acesso ao teor da investigação e que é vítima de perseguição política. A prefeitura de Canoas disse que já havia denunciando a contratação e que “mensalmente tem discordado e bloqueado valores de despesas apresentadas pelo Gamp”.

Laranjas na diretoria

Em fevereiro de 2007, o Gamp foi criado como entidade privada com natureza jurídica de ONG. Entre as pessoas que assinaram a ata de fundação está um motorista semialfabetizado, que constava como diretor-geral. A diretoria executiva tinha como conselheiros uma costureira, uma recepcionista, um mestre de obras, um ajudante geral, uma operadora de telemarketing, um cozinheiro, um estudante universitário (diretor-presidente), um montador, um manobrista e um motoboy, entre outros, que moravam em cidades como Cotia (incluindo um em Caucaia do Alto), São Paulo, São Caetano do Sul, Unaí (MG) e Taguatinga (DF).

O MP questiona o que teria levado pessoas de tão diferentes profissões – nenhuma relacionada à área da saúde -, residentes em municípios distantes uns dos outros a se reunirem em assembleia para fundar uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos. E, ainda, para atuar em área na qual elas não possuíam, com exceção de um médico convidado (que é o verdadeiro “dono” da ONG e teve sua prisão decretada pela Justiça), capacitação técnica básica para o cumprimento dos deveres estatutários da entidade.

Apesar do registro formal de várias trocas no comando da ONG, na prática, a entidade sempre foi centralizada no seu diretor de fato, sendo que os demais atuam como laranjas ou testas de ferro dele. O diretor-presidente foi, por anos, seu sobrinho, duas irmãs e uma sobrinha são membros do conselho de administração, uma irmã trabalha no setor administrativo, o cunhado é o diretor de compras, um sobrinho é encarregado de órteses e próteses. O responsável pelo setor de ensino e pesquisa do Gamp é um cunhado do médico, que não possui o ensino fundamental. Todos esses são proprietários de empresas que são subcontratadas pela Gamp e receberam verbas públicas de Canoas.

Nota do Gamp

“O Grupo de Apoio à Medicina Preventiva e à Saúde Pública (GAMP) informa que irá se manifestar formalmente assim que os advogados tiverem acesso a todo o teor da investigação do Ministério Público Estadual, na manhã desta quinta-feira (6). O Grupo ressalta, no entanto, que é vítima de um movimento de perseguição política e de empresas contrariadas com o sistema e tem o maior interesse em esclarecer os fatos”.

Por G1 RS