“Cotia Retrô”: Há 30 anos Cotia ganhava seu 1º Fanzine, um marco na imprensa alternativa

Por Beto Kodiak

A breve história começou naquele 26 de fevereiro de 1987. Foi o dia de lançamento da primeira edição de um marco na imprensa alternativa, não só de Cotia, mas do Brasil. Nascia o Fanzine Press, publicação direcionada para a música, mais precisamente o rock nacional.

Fanzine nos dias de hoje pode soar como uma palavra estranha, mas era como os jovens da época faziam para divulgar seus trabalhos, seja musical ou de cultura em geral, já que não havia internet e tudo era na base do papel sulfite, xerox ou offset e selos dos Correios. Vinha de FAN (fã) e ZINE (de magazine, revista em inglês).

A ideia e o início
Em fevereiro de 1987, após ficar muitas vezes puto por não ver algumas bandas alternativas e de underground nas páginas das principais revistas da época, como a Bizz, Roll e Somtrês, passei a procurar informações em fanzines que eram distribuídos em lojas de discos do cento de São Paulo, mas mesmo assim, ainda faltava algo neste “mercado”. Eu era um cara que gostava de rock e ia todos os finais de semana (às vezes durante também) em shows de bandas nacionais em todas as casas de shows, teatros e espaços da época. Pensei: Tá na hora de eu fazer um fanzine e divulgar o trabalho do pessoal que gosto. Pronto, nascia aí a ideia de criar um fanzine. O nome veia na lata, Press (de imprensa), pois já era meu sonho ser jornalista (naquele ano passei também a escrever para alguns jornais) e queria um nome diferente dos mais alternativos e loucos do mercado.

Todas as capas do Press, de 1987 a 1989
Todas as capas do Press, de 1987 a 1989

O primeiro número do Press foi feito bem artesanal, sem arte, fotos, apenas informações. Foi em xerox e uma tiragem de 100 exemplares que sumiram rapidinho em Cotia. Era uma novidade, os roqueiro todos falando e até que veio o primeiro reforço para a equipe, o Eduardo Coruja, que já desenhava muito e deu o toque que faltava, a arte, gravuras, desenhos e cartuns.

A tiragem do número 2 foi maior e começamos a distribuir nas lojas de discos de rock de Sampa. Logo o Press passou a ficar conhecido e recebíamos cartas de tudo que é canto do Brasil pedindo exemplares. O número de fanzines que chegava para nós também era grande e isso criou um grupo de amigos fanzineiros que agitava o circuito underground musical e cultural de várias cidades do País.

A Galeria do Rock se tornou ponto de distribuição e não dávamos conta de xerocar e distribuir, o custo começou a doer no nosso bolso e passamos a contar com anunciantes, que davam um respiro nas nossas despesas. Revistas como Chiclete com Banana (do Angeli) e Geraldão (do falecido cartunista Glauco) foram essenciais para a divulgação de nosso trabalho e exemplares do Press passaram a ir para outros países, por pedido de colecionadores e também de cotianos que moravam no exterior.

Com o crescimento, em alguns números seguintes tivemos a colaboração do nosso falecido amigo Gersão, batizado de Gerson Washington, que dava uma força nas cópias, agora no formato offset, que ele conseguia clandestinamente em uma grande empresa que trabalhava em São Paulo. O Amaury Torrezani também foi outro parceiro que nos deu uma força na segunda edição e apoio cultural nas demais.

Momentos emocionantes eram aqueles que eu encontrava as bandas, cantores e conversava, apresentava o Press e tinha essa aproximação com os artistas das bandas da época. Isso sem dizer de algumas festas que entrava na faixa, inaugurações de bares e casas noturnas em áreas VIP ao lado de pessoal do underground, ou famosos como Pepeu Gomes, Barão Vermelho, entre outros.

Aliás, o Press deu furos de reportagens, batendo até a TV Globo quando o tecladista do Barão Vermelho, Maurício Barros, saiu da banda. Demos na edição número 7 e o restante da mídia somente uma semana depois. A crítica ácida sobre as bandas ruins do rock e pop e a música brasileira, também eram um ponto de destaque. Tinha a seção PAWNOCU, onde não poupávamos quem era notícia negativa no Brasil e no Mundo.

Uma característica que todos apontavam era a proximidade com as bandas e a informação em primeira mão que dávamos.
Listar o número de amigos que apoiaram o Press, ficaria uns três dias escrevendo, mas foram muitos colaboradores. O Press durou 11 edições durante exatos dois anos de circulação, de 1987 a 1989. Com ele, conquistamos amigos, respeito e eu, particularmente, tive meu início no jornalismo naquele longínquo 1987.

Fazer fanzine não era fácil, tinha custo, deixava de comprar roupas, sair, passear, namorar, pois o dinheiro que eu ganhava trabalhando no escritório de uma antiga empresa da Granja Viana era todo consumido.

Valeu a pena cada dinheiro gasto, cada noite sem dormir, horas dentro de ônibus e metrô. Faria tudo de novo. Hoje os dias são outros e basta criar um blog ou site para poder divulgar seu trabalho. Para os artistas, tem todas as ferramentas da internet e as redes sociais.

O orgulho de ter feito parte deste movimento fanzineiro do Brasil não tem preço que pague.

Edições e seus destaques: 
Nº 1: Fellini, Smack, Barão Vermelho
Nº 2: Azul 29, May East, Zero, Voluntários da Pátria, Frank Zappa
N° 3: Cabine C, The Doors, Laura Finocchiaro, The Who, Combatentes da Cidade, Akira S
Nº 4: Bruhahá Babélico, UHF, Reggae, Television
Nº 5: Beijo AA Força, Vírus 27, Peter Tosh, Natura Neon, Desordeiros, Defalla
Nº 6: Luni, Pupilas Dilatadas, Itamar Assumpção, Luís Otávio e os 4 Olho
Nº 7: Jamp, Dialeto
Nº 8: Maria Angélina não Mora Mais Aqui, James Dean, Patife Band, Vultos
Nº 9: Gang 90, Rock em Cotia, Tutti Frutti, Rastafaris
Nº 10: Chance, Símbolo, O-Kotô, Kafka, Harry, Cocteu Twins
Nº 11: Sexo Explícito, Klébi Nori, Nei Lisboa, Cascavelettes, Black Future

Anunciantes: Jornal da Cidade, Manu’s Discos, Lanchonete Famel (Zaracho), Rodrigues Baterias, Mopyr Academia, Outros Modos Discos.

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Os “Contos & Causos de Cotia” também podem ser vistos no LINK

Encontro de fanzineiros em Santos, 1987. Edu Coruja (Press), Jânio (Auto Gestão), Carla (colaboradora do zine Absurdo), Janete e Sandro (Auto Gestão), Zé (Ilha Porchat), Bird (radialista), Beto Vandenbrande (irmão da Paula), Kiko (poeta), Paula Prata Vandenbrande (Zine Absurdo), Beto Kodiak (Press)
Encontro de fanzineiros em Santos, 1987. Edu Coruja (Press), Jânio (Auto Gestão), Carla (colaboradora do zine Absurdo), Janete e Sandro (Auto Gestão), Zé (Ilha Porchat), Bird (radialista), Beto Vandenbrande (irmão da Paula), Kiko (poeta), Paula Prata Vandenbrande (Zine Absurdo), Beto Kodiak (Press)
Zineiros em Cotia no reveillon 1988: Silvio (amigo), Carla (parceira zine Absurdo), Sandro (Auto Gestão), Paula (Absurdo), Giba Marcelino (tinha o zine Liberdade Já, em Cotia), Jânio e Janete (Auto Gestão), Beto Kodiak (encoberto), Marquinhos e Carlinhos (colaboradores do Press) e João Massler (Fanzine Colisão, também de Cotia)
Zineiros em Cotia no reveillon 1988: Silvio (amigo), Carla (parceira zine Absurdo), Sandro (Auto Gestão), Paula (Absurdo), Giba Marcelino (tinha o zine Liberdade Já, em Cotia), Jânio e Janete (Auto Gestão), Beto Kodiak (encoberto), Marquinhos e Carlinhos (colaboradores do Press) e João Massler (Fanzine Colisão, também de Cotia).

 

 

Santos...87. Kodiak, Kiko, Paula, Coruja, Beto, Janete, Bird, Sandro, Carla, Jânio,
Santos…87. Kodiak, Kiko, Paula, Coruja, Beto, Janete, Bird, Sandro, Carla, Jânio