“Contos & Causos de Cotia”: Saudades do biju…maçã do amor..trocar garrafa por pintinho….

Por Beto Kodiak

Faz tempo que não passo por aqui no “Contos & Causos de Cotia”, as ideias até aparecem, as histórias e lembranças, mas falta inspiração pra escrever.

Estava há poucas semanas na chácara de um amigo fazendo churrasco e contando sobre curiosidades da minha infância. Éramos em 12…13 pessoas, todas mais novas que eu, com idades entre 22 e 38 anos e eu aqui já com meus 53.
Claro que rola a curiosidade de saber como era essa minha época e Cotia antigamente. Comecei a contar sobre profissões antigas que, em alguns casos, não vejo mais por aqui. Lembrei do vendedor de biju, de maçã do amor, o garrafeiro que trocava garrafas velhas por pintinhos, aqueles afiadores de faca e tesoura que vinham com bicicleta adaptada com esmeril ou apenas parte delas, e também os verdureiros e peixeiros, que vendiam em carrinhos de mão ou Kombis. Enfim, lembranças que muita gente tem dos anos 60, 70 até os 80.

Vou contar histórias que vivi na Vila São Francisco e Portão, mas que muita gente também presenciou em outros pontos da cidade ou demais lugares. Dá muitas saudades de lembrar esses momentos e saber que essas profissões estão (ou quase) extintas.

Vendedor de biju…taca taca taca

Sim, essa é a onomatopeia daquele negócio de madeira que o vendedor de biju segurava e girava na mão, a matraca. A molecada via o bijuzeiro chegando nas ruas de terra da Vila e já corria pegar umas moedas para comprar. Me lembro que uma vez o bijuzeiro tinha tomado umas “cajebrinas”, estava bêbado, deixou o estoque dele na porta do armazém da minha mãe e foi beber umas pingas. Prato cheio pra molecada fazer a rapa….comeram biju o dia inteiro….rs. Apesar de ainda ter vendedor de biju nas praias, fiquei muitos anos sem ver em Cotia. Há uns três anos estava em casa e ouvi o barulho da matraca, olhei pela janela e o vi passando na rua. Saí correndo, quase caí no quarto pra colocar roupa e um chinelo, pegar carteira, fui pelo quintal e pra rua. Cadê o biju? Sumiu. Até hoje fico na dúvida se foi um “deja vu”…”visão”…ou se o cara andou tão rápido que o perdi de vista……

Chora que a mamãe compra

Tinha um cara, um rapaz de seus 20 e poucos anos que vinha de ônibus de Sorocaba para Cotia vender maçã do amor. Ele descia do Cometa no km 33 da Raposo, ali perto do antigo bar Cocoreco (que acabou com vários casamentos à época, mas essa é outra história que conto no futuro).

Ele subia pela rua principal da Vila e começava com seu jargão: “É A MAÇÃ DO AMOR….CHORA QUE A MAMÃE COMPRA”! E ao final do dia, perambulando pelas ruas dos bairros vizinhos ao Centro de Cotia, vendia tudo. Eu não precisava chorar pra minha mãe, já que ela gostava muito e comprava para ela, pra mim e meus irmãos. Há pouco tempo vi um vendedor de maçã do amor no Centro e ainda tem uns que resistem ao tempo nas ruas.

Garrafa velha? Troca por pintinho

Tive um galo no quintal da minha casa que era um verdadeiro pitbull. A molecada que gostava de roubar frutas em casa ficou um bom tempo sem surrupiar ameixas, cerejas, mexericas e abacates por medo de um galo branco, peitudo e imponente.
Esse galão tinha sido um pintinho que ganhei ao trocar por algumas garrafas velhas. Cresceu tanto que virou segurança da casa. Como minha família tinha armazém, ter garrafas sobrando era comum, então sempre trocava e cuidava dos pintinhos, mas muitos vinham doentes e morriam, não suportavam o frio longe da mamãe e dos irmãos. As peruas passavam pelos bairros com o alto falante avisando que trocava garrafas e até ferros velhos pelos pequenos pintinhos amarelinhos. Nos dias de hoje talvez isso seria crime ambiental e todo mundo iria parar na delegacia.

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Mas que peixe com gosto de BHC

Peixeirooooooooooooo…Olha a sarrrrrdinha…manjuuuba…laaaambari fresco, tilápia, peixes frescos! Era mais ou menos assim que os peixeiros anunciavam os produtos em suas kombis e até belinas ou variantes.
Tinha peixe entregue na porta de casa. Um comércio que ainda existe hoje, apesar de tantas leis sanitárias que proíbem a prática.
Me lembro de peixeiros que passavam por Cotia e não tinham a preocupação de ter barras ou cubos de gelo para resfriar os peixes, era ali mesmo, nas caixas ou água que de manhã estavam geladas, mas com o passar das horas, ferviam.
Muitas donas de casa reclamavam que o peixe estava com cheiro e gosto de BHC. Mas, que porra é esse BHC?
Era um agrotóxico usado nas lavouras e que de uma certa forma, chegava aos rios, contaminando a água e peixes. Ele tinha um cheiro forte mesmo e matou muita gente. Nos anos 80 foi banido em muitos países, inclusive no Brasil.

Verdureirooooo

Ainda temos muitas pessoas em Cotia que sustentam a família vendendo verduras e legumes em carrinhos de mão andando pelas ruas. É uma luta diária para concorrer com os mercados, quitandas e até açougues que hoje vendem hortifrúti.
Mas Cotia tinha muitos verdureiros. Lembro do Seo Dito, um senhor negro, bigode, usava chapéu e saía pelas ruas vendendo os produtos, sempre com muita conversa com as donas de casa, diversas histórias para contar de sua vida. Uma vez ele derrubou um pacote de sal no chão e estourou. Juntou o sal e resolveu lavar. Resultado: perdeu todo o produto….rs..

Um verdureiro legal, que vinha com sua Kombi de Itapevi era o Rogério. Um homem de 30 e poucos anos, voz de locutor de rádio, anunciava que estava chegando e as donas de casas já iam comprar seus produtos, sempre fresquinhos. Era bom de papo e sempre parava no armazém da família tomar café. Depois, deixou a Kombi e montou um comércio no centro de Itapevi.

Faca cega, faca amolada

Os afiadores de facas e tesouras eram figuras carimbadas na cidade. Uns tinham suas bicicletas adaptadas com aquele esmeril, que quando acionado com o pedal, afiavam as ferramentas. Tinha uns que trabalhavam com apenas a roda para circular e o esmeril na mesma composição. Meu avô Nhonhô sempre afiava as facas do armazém e também seu tesourão de cortar as unhas.

No início do ano vi na Rua Baptista Cepellos um homem com bicicleta afiando uma tesoura de um comércio local.

Corre que o Pepino tá vindo

Uma figura emblemática em Cotia era o Pepino (também chamado de Mulatinho), um senhor elegante, que andava de terno, gravata e chapéu e tinha uma profissão bem interessante na época: consertava guarda chuva e sombrinha.
Todo mundo confiava nele o conserto de seus protetores contra chuva e sol. O problema é que o Pepino era meio esquentado, raivoso e isso era um prato cheio pra molecada, que zoava com ele a todo tempo e ele saia correndo atrás da gente.

Bom, enfim, são algumas lembranças, que espero ter despertado a memória de muitas pessoas que viveram essa época. Lembrou de mais profissões e pessoas que tinham trabalho que hoje acabou ou é raro? Manda pra mim sua história no email [email protected]

Fotos da matéria: Gazeta de Votorantim, Campo Grande News, Jornal do Comércio e Google

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