Coluna de Iris Neves: Precisamos falar sobre ambientes de trabalho tóxicos

Você já parou para refletir quantas horas do seu dia são dedicadas ao trabalho? Vamos fazer uma continha simples aqui. Se você tem um contrato CLT, então provavelmente trabalha 9 horas por dia dentro da empresa. Agora vamos adicionar 1 hora e meia para o trajeto entre casa e trabalho, totalizando 3 horas ao dia. Temos a soma de 12 horas, contando trabalho formal e o trajeto. Isso quer dizer que, de 24 horas do seu dia, 12 são dedicadas ao trabalho. Ou que metade do seu dia é voltada para o seu trabalho. A conclusão não pode ser outra: é muito tempo!

O grande problema não é o tempo que você passa imerso no trabalho, mas sim COMO você passa esse tempo. As horas dedicadas ao trabalho não sofrem grandes mudanças de empresa para empresa, o que muda (e muito!) é o ambiente de trabalho que cada empresa proporciona aos seus funcionários. Apesar do que alguns gestores e empresários insistem em dizer, ambiente de trabalho tem pouco a ver com o faturamento e tamanho da empresa, e tem muito mais a ver com os valores da empresa e com os comportamentos que os líderes incentivam dentro da equipe.

Cresce o número de pessoas que sofrem com doenças psicológicas originadas no ambiente de trabalho, como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, burnout, e outras. Em geral, o sentimento que essas doenças trazem para o dia a dia do funcionário é tristeza, desânimo, falta de confiança, estresse, dispersão, falta de engajamento e desmotivação. Agora, imagine passar metade do seu dia em um ambiente de trabalho que te traz todos os esses sentimentos negativos? Horrível, não é!?

É difícil definir o que é um ambiente de trabalho ruim, ou o que chamamos de ambiente de trabalho tóxico. E é difícil justamente porque as pessoas são diferentes, logo, o que incomoda um pode não incomodar ao outro. Por isso, analisar um grupo de funcionários e entender o sentimento que eles têm em relação à empresa é um bom ponto de partida. E eu não digo que os funcionários vão afirmar que não gostam da empresa, na verdade, alguns podem até dizer que gostam. Mas, ao investigar com mais profundidade, é possível notar alguns padrões de sentimentos que vão em contramão do que o funcionário diz.
Eu posso dizer que gosto muito da empresa em que eu trabalho, mas será saudável que eu trabalhe muitas horas extras na semana e aos finais de semana ao invés de curtir com a família, porque acredito que o meu funcionário quer roubar a minha posição e que o meu chefe não confia no meu trabalho? Não me parece saudável.

A maioria das pessoas encontra dificuldade para compreender suas próprias emoções, muitas confundem sentimentos negativos relacionados ao trabalho com coisas alheias à vida profissional. Algumas, inclusive, se culpam por ter sentimentos ruins quanto se trata de trabalho. É só você refletir sobre quantas vezes já ouviu a frase: “Pelo menos você tem um trabalho, comida na mesa. Não está bom?” Pode parecer cruel, mas é um comentário muito comum. É como um indicativo de que, se você tem uma fonte de renda, um trabalho, então tudo deve estar bem. Isso gera um sentimento de culpa gigantesco em pessoas que convivem em um ambiente organizacional ruim e que, por esse motivo, nem sequer conseguem aproveitar os benefícios financeiros provindos de sua mão de obra.

Mas por que é importante falar sobre ambientes de trabalho tóxicos?
Olhando pelo ponto de vista do funcionário, trabalhar em um ambiente tóxico tem graves efeitos para sua vida, tanto a vida profissional quanto a pessoal. Além de todas as doenças que eu mencionei, ainda tem aquelas coisas que parecem “leves”, mas geram problemas sérios. Dificuldade de delegar tarefas, desconfiança, excesso de trabalho, rispidez, fadiga, sensação de fracasso, dificuldade de encontrar um propósito atrelado às suas tarefas, falta de conexão com os colegas de trabalho e com a empresa, são alguns exemplos. Como o ser humano não consegue distinguir o seu eu profissional e o seu eu na vida pessoal, todos os comportamentos e atitudes que ele tem no trabalho provavelmente se repetirão no âmbito familiar e em seu círculo de amizades. Estresse, agressividade, tristeza, isolamento, pânico, são alguns sentimentos e comportamentos comuns de serem vistos no ambiente familiar, e que muitas vezes são originados no ambiente de trabalho.  Com o tempo, o funcionário passa a enxergar o trabalho como algo negativo, um preço a pagar para poder usufruir de uma vida mais confortável. E eu te garanto que esse não é o objetivo do trabalho (ao menos não o único objetivo).

Olhando pelo ponto de visto do gestor e da empresa, incentivar um ambiente de trabalho saudável tem efeitos diretos na produtividade organizacional. Em um ambiente de trabalho saudável, o funcionário se sente confiante e seguro para propor ideias, participar das atividades, contribuir com o time, e cuidar do local de trabalho. O senso de dono do funcionário aumenta quando o ambiente de trabalho é bom. O contrário, também é verdadeiro. Quando o ambiente de trabalho é tóxico, a produtividade do funcionário cai, ele passa a fazer apenas as atividades mais básicas do seu escopo (e olhe lá!), atrasos se tornam comuns, sua assiduidade despenca. Tudo isso porque o trabalho lhe causa tristeza, faz com que ele se sinta mal, e gera até mesmo um desejo de vingança por parte do funcionário.
Entende como construir um ambiente de trabalho saudável vai muito além do “espalhar boas energias”? A empresa ganha em produtividade. E produtividade, por sua vez, gera mais lucratividade.

Se você ainda tem dúvidas, faça as seguintes reflexões: Como pensar em estratégia se o gestor precisa se ocupar fazendo vários serviços operacionais que poderiam ser facilmente delegados para seus funcionários? Como delegar tarefas se o gestor não confia em seus funcionários? Como estimular uma cultura de colaboração se os funcionários se enxergam como inimigos uns dos outros? Como inovar se o funcionário é constantemente criticado por seus erros, e se sente culpado por isso? Como querer contribuir para o crescimento de uma empresa que faz você se sentir diminuído e triste?

Criar e manter um ambiente organizacional saudável é responsabilidade da empresa como um todo. Algumas áreas têm mais responsabilidade neste processo, como a área de Recursos Humanos. Contudo, o ambiente empresarial é composto por todos os indivíduos que estão dentro dele, logo, os próprios funcionários possuem uma responsabilidade grande neste processo. O problema, no entanto, é que, quanto mais tempo passa dentro de um ambiente de trabalho tóxico, mais o próprio funcionário se torna um agente de propagação desta cultura. E aí constrói-se um ciclo vicioso difícil de ser quebrado. Por esse motivo, é importante que existam processos e rituais que garantam o direcionamento da cultura organizacional que a empresa busca, que são possíveis de realizar independente da liderança de determinada área ou da vontade de um funcionário específico.

Rodas de conversa, reuniões de equipe, políticas de transparência, canais de comunicação interna, fóruns de discussão, canais seguros para comunicar agressão e assédio, caixas de sugestão, treinamentos, e vários outros rituais e processos são alguns exemplos de como a empresa consegue manter a cultura e o ambiente definidos pela alta liderança sem a dependência extrema de um gestor ou funcionário específico. Trata-se de processos que garantem o alinhamento da cultura dentro da empresa.
Quando o ambiente de trabalho é saudável, todos os membros da empresa são beneficiados. É uma cadeia, em que o que acontece em uma ponta tem efeito no que acontece na outra ponta.

Se você sente que o seu ambiente de trabalho não é um lugar saudável para estar, você tem duas opções: retire-se ou tente modificá-lo. Como parte da empresa, você também tem a responsabilidade sobre o ambiente que foi construído, portanto, você pode ser o agente de mudança. Essa opção é mais difícil do que se retirar, mas quem disse que todas as escolhas da vida são fáceis? Quando opta por mudar o ambiente em que está, você ajuda outras pessoas que talvez nem percebam o quão tóxico é o lugar, ou que não têm a opção de se retirar. Mas, em alguns casos, essa cultura já é tão enraizada que apenas não vale a pena insistir porque é preciso um esforço absurdo para modificar. Nesses casos, a melhor escolha é sair.

Seja qual for a escolha, a minha recomendação é: não fique e não aceite a situação como ela é. O sentimento corrói e, se ainda não é uma doença, em algum momento será. As situações que você vivenciar vão moldar a forma como você enxerga o mundo à sua volta, principalmente o mundo do trabalho e a sua percepção sobre si mesmo. Não vale a pena, acredite!

*Iris Neves é pós graduanda no curso de Gestão Estratégica de Recursos Humanos na Universidade Presbiteriana Mackenzie e graduada em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Já atuou nas áreas de Desenvolvimento Organizacional, Engajamento e Cultura, Treinamento, Consultoria Interna de Recursos Humanos, e atualmente é Analista de Recursos Humanos.
Adepta à práticas de meditação e amante de corridas de rua, Iris escreve quinzenalmente para o jornal sobre temas ligados ao ambiente empresarial, principalmente voltado para práticas de Recursos Humanos dentro das organizações.

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