Coluna da psicóloga Adriana Biem: Quem sou eu?

*

Mulher não deveria se comportar assim, homem não pode chorar, alise seu cabelo, corte sua barba, use o sapato que está na moda, corte o cabelo igual ao da atriz da novela, use o esmalte daquela cantora, case, tenha filhos, faça a coisa certa, escolha uma profissão que dá dinheiro, não poste determinadas coisas nas suas redes sociais, procure comida sem glúten, sem lactose, sem graça. Tome muito chá verde e pouca cerveja. Vinho faz bem, não, peraí, vinho faz mal, olha, parece que voltou a fazer bem, tome um cálice por dia e viva muitos anos. Não coma ovo, como ovo, não coma ovo, coma ovo.

Não dance desse jeito, escute somente aquele tipo de música, não tire férias, tenha o carro do ano, não pinte o cabelo de rosa, não fale o que você pensa, seja sexy, bonzinho, organizado e magro. Não seja vulgar, feito de bobo, obsessivo e fraco. Não fale alto, não fale muito. Não demonstre fraquezas e tenha uma religião. Não faça tatuagem, não se divorcie, arrume alguém antes dos 30, faça planos, não crie expectativas, não confie nas pessoas, seja um bom amigo, ajude o próximo, não de esmola para mendigos.

Não seja tão rebelde, tenha mais opinião. Nossa, você amamenta até os 2 anos? Credo, aquela mãe amamentou só 1 mês. Fez cesárea? É fraca. Fez parto normal? É louca! Hoje em dia com tantos avanços, vamos sentir dor pra quê? Trabalha pouco, é vagabundo, trabalha muito e não fica com a família, é ausente!

Homem não presta, mas tenha um, mulher é interesseira, mas case-se com uma, filhos dão trabalho, mas tenha vários porque filho único também não pode né? Coitada da criança, tão sozinha! Ai, seu filho é muito agitado, melhor medicar. Seu filho é muito quieto, não deve ter amigos.

Seja feliz, meiga, produtiva, líder, justa, bonita, simpática, não fale de boca cheia, não sente de perna aberta, não sinta raiva, pena ou depressão, não seja besta, cruel e coma menos pão.

Todas essas frases, de alguma forma são as coisas que ouço por aí, no dia a dia, entre amigos, na família, no consultório. Com algumas delas concordo, com outras não, algumas delas sigo, outras prefiro passar bem longe. O ruim, não é você ter opinião sobre algumas coisas,  segui-las e eventualmente falar sobre elas, o problema é você querer que todo mundo faça exatamente o que você acha certo. O que deu certo para um, pode não dar para outro, o que faz um feliz pode ser a infelicidade de outro.

Quando é que a vida ficou tão cheia de pessoas que sabem o que é melhor para o outro sem nenhum embasamento? Quando é que as informações e normas começaram a chover sem parar em cima de nossas cabeças? Ficamos perdidos no meio de tantos “eus” que deveríamos ser e tantos outros que querem nos ditar quais são as regras.

O que é certo, é que no meio desse turbilhão nos perdemos de nós mesmos. Não é raro ver quem não sabe o que quer, do que gosta e o que faz feliz. São tantos “eus”, que nos perdemos do nosso próprio, e isso acaba causando diversos problemas de identidade nas pessoas, ocasionando sérios distúrbios emocionais.

Vamos treinar? Tentar apenas escutar o outro e só dar conselho para quem realmente te pedir? Valendo!!!

*Adriana Biem é psicóloga e escreve quinzenalmente no Jornal Cotia Agora – Telefone: 9-9495-2141 – adrianabiempsicologa.com.brEmail: [email protected]