Cantora cotiana, ex Bom Dia & Cia, vira fenômeno da música gospel

Para muitos, Priscilla Alcântara é uma lembrança. A artista passou a infância no ar, ao vivo no SBT, no comando do programa infantil Bom Dia & Cia, ao lado de Yudi Tamashiro. Foram oito anos, dos 9 aos 17, na televisão. A saída do canal, em 2013, parecia um adeus ao grande público. Mas foi o contrário: longe das câmeras, a moradora de Cotia, investiu na carreira musical. Hoje, aos 22 anos, está entre as grandes promessas do gospel.

“Ela é uma das maiores cantoras do país”, exagera Arnaldo Saccomani, que foi produtor de nomes como Tim Maia e Mara Maravilha. Nove faixas do último álbum da moça, Gente, lançado em novembro em versão digital, figuraram entre as 200 músicas mais ouvidas no Spotify no país durante as 24 horas subsequentes à estreia. Na lista, apareciam também cantores afeitos a temas nada cristãos, como Anitta e MC Kevinho.

A popularidade tem duas razões. A primeira são os fãs que cresceram junto com Priscilla (ainda que do outro lado da telinha) e continuaram acompanhando-a após a fase do “Playstation” — a palavra virou meme por ser repetida à exaustão no quadro em que os telespectadores ligavam para o SBT na esperança de ganhar o videogame. O segundo motivo está nas composições de ritmo pop eletrônico que, embora baseadas na Bíblia, não citam termos do livro.

“Alargar o discurso faz com que a mensagem não se limite às paredes da igreja”, pensa Maurício Soares, diretor artístico da Sony Music, gravadora de Priscilla desde 2015, quando lançou seu primeiro disco autoral, Até Sermos Um. Seu clipe mais recente, Empatia, com quase 4 milhões de visualizações no YouTube, traz um refrão que diz “você é igual a mim / então, faça por mim / o que faria a você”.

 

Priscilla, com Yudi, no SBT: atração para crianças a lançou ao sucesso (Roberto Nemanis/SBT/Divulgação)

Isso não significa, porém, que Priscilla esconda sua fé. Esse é o tema mais comentado por ela, seja em entrevistas, seja em declarações no Instagram, onde cultiva 4,4 milhões de seguidores. A rotina lotada de compromissos profissionais, que inclui três shows por semana, não permite que ela vá ao culto neopentecostal da badalada Bola de Neve, na Lapa, todo santo domingo. A assiduidade na religião é garantida com a leitura de trechos da Bíblia. “Peço a Deus para ler comigo. Não é sobre crer, mas sobre relacionar-se e conversar”, acredita. Segundo ela, em um desses diálogos, recebeu uma missão: reunir um grande número de pessoas em um único evento cristão.

O pedido foi uma ordem. Em 2016, nasceu o Até Sermos Um (ASU), celebração anual que promove a união de igrejas evangélicas do país. Na última edição, no Ginásio do Ibirapuera, rolaram show da fundadora e um espetáculo teatral com direito a cavalo e motocross. O evento, organizado com a ajuda de voluntários e muita conversa no WhatsApp, reuniu 10 000 pessoas. Entre os ajudantes, estavam a irmã e os pais de Priscilla, músicos, que embarcam em suas aventuras desde a primeira vez no SBT, no concurso de música do qual saiu vencedora. Foi uma realização para a família evangélica, que incentivava, desde cedo, a filha prodígio a soltar a voz no coral da igreja e na Marcha para Jesus, da qual participou de novo em 2018, cantando para 1,5 milhão de pessoas, o maior público da carreira.

Do altar ao palco, muita coisa mudou. O jeito descolado de se vestir, a fala, que não economiza gírias, o cabelo, que já foi metade raspado e pintado de rosa… Para ela, o dia perfeito inclui cuidados com a pele, sessão de terapia e almoço no restaurante de comida natural Le Manjue Organique. Priscilla ama estar com gente barulhenta e curte ouvir Michael Jackson, Jorge Vercillo e Queen. “Por muito tempo a igreja definiu um estereótipo. Eu não sou esse padrão”, crê. Ainda assim, diz que deseja namorar alguém da mesma crença e que sexo deve acontecer apenas depois do casamento.

Defende o Estado laico, mas prefere não comentar a respeito da bancada evangélica no Congresso, assim como não se posicionou na última eleição para presidente. Sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirma: “Para mim não, mas, se o outro quiser, que case”. Planos para o futuro? “Quero continuar o que Jesus fez”, diz, em referência à ideia de divulgar a palavra cristã. Além disso, gostaria de cantar em espanhol e levar o ASU para um estádio. “Também pretendo voltar um dia para a TV, quem sabe.”

Por Gabrielli Menezes – Veja SP – Foto principal: Ricardo D’Angelo/Veja SP