Bandas lançam álbuns em K7 para atender fãs

Muito usadas na década de 90, as fitas cassetes praticamente desapareceram nos anos 2000 com a chegada dos tocadores de MP3. Recentemente, no entanto, diversas bandas lançaram versões de seus álbuns no formato para atender a um grupo de fãs saudosistas e colecionadores.

De acordo com Rodrigo Chã, 34, do selo Contra Boots, de São Paulo, focado em lançar cassetes com gravações de shows ao vivo de punk, hardcore e metal, quem compra cassete é o mesmo fã que quer ter a camisa da banda, a caneca ou chaveiro. Ou seja, materiais baratos. “O vinil é muito caro e o CD já não importa tanto. O cassete preenche o desejo do fã em ter algo exclusivo em um formato diferente”, explica.

O CD é um produto banal atualmente. O cassete tem o fetiche pelo formato analógico e o público que curte punk tem essa cultura desde os anos 70 de comprar bootlegs”, conta. O último lançamento do selo foi o show ao vivo dos Ratos de Porão, gravado em Buenos Aires, na Argentina, que saiu com 125 cópias numeradas, vendidos por preços que variam entre R$ 20 a 25.

João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, acha o formato lindo, mas confessa não ter interesse nas fitinhas. “Não cabe muita coisa e não é prático. É só romântico”, diz. “Eu tenho um tapedeck gigante aqui em casa, mas não funciona. Não tenho mais onde ouvir. Só escuto LP e digital”, completou.

Para o cantor, o formato passa por uma redescoberta, mas se manterá como algo de nicho. “É igual a máquina de escrever ou os bigodes enrolados. O pessoal volta a usar de tempos em tempos. Vai e volta”, diz. “A qualidade da fita cassete é pior do que as outras mídias. A única vantagem é o formato, que é lindo. Não guardo nostalgia. Para a gente, que era pobre, ela era importante para gravar as demos”.

Gabriel Thomaz, vocalista da banda Autoramas, também vai lançar o novo álbum da banda, “O Futuro dos Autoramas”, no formato. O cantor, ao contrário de Gordo, é fanático pelas fitinhas. “Acho que é uma tendência mundial. Vamos tocar lá fora e na lojinha do show tem pôster, vinil, bandeira e CD, mas o fãs querem o K7”, diz.

Redescoberta

Ao lado de Daniel Juca, Gabriel vai lançar a HQ “Magnéticos 90 – A geração do Rock Brasileiro lançado em fita cassete”, para contar como o formato foi importante na divulgação das bandas e na gravação de fitas demo. “Ironicamente, depois que formei o Autoramas nunca tinha lançado nenhum álbum no formato. Apenas quando era da banda Little Quail”, lembra.

Para o cantor, os interessados em cassete não são só saudosistas. “Tem muita gente que nasceu na era digital querendo comprar as fitinhas”, afirma. “A relação que temos com o cassete é muito pessoal e próxima. Montar uma mixtape era algo que dava trabalho”, diz. “A galera mais nova se acostumou com a praticidade. Mas será que isso é o certo? E o valor da arte da capa? E a sensação de sentir a textura da fita na mão?”, questiona.

Dinho Almeida, 24, vocalista do Boogarins, formado em 2012, teve pouco contato com o cassete na infância, mas sempre foi apaixonado pelo formato. Tanto é que o grupo lançou em cassete todos os seus álbuns. “A baixa qualidade da fita não é um problema porque ao decidirmos gravar no formato, usamos essas particularidades a nosso favor. O ruído dá uma cor à musica e trabalhamos com isso”, explica.

Foi pensando nisso que Fernando Lauletta, sócio da gravadora FlapC4, em São Paulo, comprou recentemente por R$ 10 mil um duplicador de cassetes com capacidade para produzir cem fitas por hora. “Compramos as fitas virgens no Canadá. Aqui nós gravamos, fazemos as artes gráficas e embalagens”, conta.

Para o empresário, a graça do cassete é permitir ao fã ter uma relação mais próxima com a música de seu artista favorito. “O cassete praticamente te obriga a ouvir a música do início ao fim. Não é fácil avançar as faixas. O objetivo ao escolher o formato não é a qualidade e sim essa relação”.

Por Felipe Branco Cruz – Uol