Artigo de Jessica Tashiro: “O adolescente e a educação”

Uma educação de qualidade que atenda as necessidades pós-modernas já é concebida como um desafio, não obstante, essa educação tem hoje um novo público: o adolescente moderno.

Os jovens de outrora eram preparados ou para o ingresso nas universidades (o que lhes custavam horas de estudo sistematizado), ou para o trabalho (o que o tornava especialista na área de atuação). E o acesso à educação, mesmo em nível fundamental, era extremamente seletivo. Para muitos, desprivilegiados economicamente e não pertencentes às elites, até a escola de nível médio era aspiração muito distante.

Hoje, embora com resquícios do passado, a realidade é bem diferente, pois, ao lado da crescente procura por maior escolaridade, visando a qualificação para o trabalho ou para a vida, a oferta de emprego diminuiu. Ao mesmo tempo, faltam espaços sociais de vivência cultural, principalmente nas pequenas cidades, sendo a escola pública (em especial) muitas vezes, um dos únicos espaços públicos que restaram para a socialização dos jovens. A urbanização acelerada não foi acompanhada por investimentos públicos em equipamentos sociais e culturais que pudessem atender a essa demanda para proporcionar melhor qualidade de vida aos jovens¹.

De acordo com Menezes, no relatório sobre o “novo público e a nova natureza do ensino médio” do Centro de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, é importante lembrar que hoje, somente em São Paulo, existem mais de 2 milhões de jovens matriculados no ensino médio, e 800 mil no ensino superior. Nota-se que mais de dois terços dos alunos terão outro destino que não o ensino superior, ou seja, sairão da escola média e irão em busca de cursos profissionalizantes, do primeiro emprego ou, pior, subemprego. Menezes propõe uma questão acerca do papel da escola: será que ela está reconhecendo essa nova clientela e atendendo suas expectativas e contribuindo para a realização de suas potencialidades? Provavelmente esteja caminhando para isso, uma vez que, em menos de dez anos, o número de alunos na escola média era de menos da metade do que se tem hoje, podendo concluir-se que a escola ainda está em processo de adequação. Essa transformação é necessária para que ela garanta seu papel de colaboradora no desenvolvimento da confiança, auto-estima, valores humanos, autonomia e consciência social no jovem.

O artigo 35 da LDBEN (Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996) prevê um ensino médio que não se limite à preparação para a universidade ou somente para o trabalho, mas que perpasse esses objetivo e complete a formação da juventude para o exercício pleno da cidadania. Por outro lado, é preciso também, atentar-se quanto à participação do jovem dentro da escola, ambiente onde muitos, diante da pluralidade de oportunidades oferecidas, sentem-se à vontade para protagonizar. Segundo Fanfani, a escolarização “cria juventude”, ou seja, contribui muito para a construção destes novos sujeitos sociais².

Desse modo, nós educadores temos mais um grande desafio: perceber nossos alunos como sujeitos indispensáveis à construção de sua formação e desenvolvimento de suas potencialidades. E é nesse processo, nessa travessia compartilhada que devemos ter como princípios norteadores o acolhimento, o respeito mútuo, e a plena consciência de que nossa contribuição é para a formação de um sujeito crítico e atuante.

[1] MENEZES, Luis Carlos de. Físico e educador, professor na Universidade de São Paulo.

[1] FANFANI Emilio Tenti. Culturas jovens e cultura escolar. In: Seminário “Escola Jovem: um novo olhar sobre o ensino médio”, 2000, Brasília. Anais eletrônicos.

*Jéssica Nardo Vieira Tashiro é professora de Língua Portuguesa e Mestre em Educação, Administração e Comunicação