Adriana Calcanhotto cria disco em 43 dias durante quarentena

Para alguém que demorou sete anos a lançar um álbum novo, fazer isso em 43 dias é como um piscar de olhos. E foi o que realizou Adriana Calcanhotto em seu novo disco, “Só”, fruto do isolamento, logo após “Margem”, do ano passado, marcado pelo longo hiato dos estúdios. Mas em um momento como o que vivemos, é de se esperar que a arte também possa mostrar suas excepcionalidades.

Todo o processo de criação – que envolve composição, produção, gravação e mixagem – começou e terminou durante a quarentena, entre 27 de março e dia 8 do mês passado. Apesar do tempo curto, o disco não ecoa a rapidez com que foi feito, soa mais como um respiro em meio ao cenário de caos pandêmico no qual foi concebido.

A atualidade do registro, produzido em conjunto com Arthur Nogueira, fica clara logo de cara, em “Ninguém na Rua”, canção inicial do álbum de nove faixas. Com nome autoexplicativo, é um relato do esvaziamento das ruas provocado pelo novo coronavírus, acompanhado por uma base que mistura funk e violão de forma singela.

Mas nem só nas letras Calcanhotto testemunha o confinamento brasileiro. “O que Temos” também se utiliza de fragmentos da trilha sonora ouvidas de janelas e varandas em alguns momentos. Na música, sons metálicos vão tomando sorrateiramente o lugar dos arranjos, em referência aos panelaços que ocorreram Brasil afora.

Entre temas mais sentimentais com roupagem de MPB e sambas, a única participação especial do álbum é em “Bunda Le Lê”, na qual o produtor Dennis DJ dá o toque quebrado do seu funk aos versos bem-humorados de Calcanhotto. “O que que faz na quarentena? / Na quarentena, o que que faz? / Senta, senta, senta”, canta a gaúcha, subvertendo o sentido com o qual a palavra é geralmente utilizada em produções de funk.

Quase uma obra à parte, a artista também aproveitou o período de pouco mais de um mês para lançar um “clipão” de “Só”, disponível no YouTube. Trata-se de um álbum visual gravado no quarto dela, feito em somente um plano-sequência de quase meia hora. Sozinha, é claro.

Do Metro